Fatale Profundum
Estou parada na escadaria de um cortiço. Há pouco tempo, esses degraus rangentes davam um verdadeiro concerto sob o peso dos nossos sapatos. Agora, o som se estende como uma corda por um instante antes de se romper. Paredes rachadas me cercam, e nelas há manchas pretas — será que este prédio pegou fogo? Ou será que nosso fervor desenfreado deixou sua marca?
Agora é tarde demais para jogar cinzas na minha cabeça. Por trás dos olhos fechados, imagens fervilham e tremeluzem nas minhas pálpebras como um filme preto e branco num cinema parisiense. Cada vez que os fecho, começo a entender com mais clareza por que dizem que o amor é cego. Eu deveria ter escutado... mas naquele momento, sua presença ofuscou meus olhos. Agora o sofrimento me cerca como os gavinhas espinhosas de uma trepadeira, me prendendo no lugar. Cada movimento traz uma dor que só diminui quando congelo, como uma estátua. Neste jardim esquecido, permanecerei por uma eternidade, se é que o tempo realmente cura as feridas.

